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OS MAIOS

Uma Tradição Popular no Concelho de Olhão

Em Particular na Zona de Bias

 

       Os Maios constituem um ritual tradicional do Algarve, que se celebra todos os anos no dia 1 de Maio, tendo na zona de Bias, no concelho de Olhão uma das representações mais significativas. É um ritual que alguns investigadores apontam as origens na época da ocupação romana, como festas de caracter profano, com ligação ao culto da natureza.

Desde 1890, que o 1º de Maio passou a ser o Dia Internacional do Trabalhador, ano em que pela primeira vez foi comemorado em quase todo o mundo, a que aderiram também os operários portugueses.  

Foi uma resposta firme dos operários de muitos países, à violenta repressão ocorrida em Chicago (USA), no dia 1 de Maio de 1886, sobre trabalhadores que se manifestavam em defesa do horário de trabalho de 8 horas por dia, e contra a exploração a que estavam sujeitos. Foram então condenados à morte em Chicago oito dirigentes sindicais.    

O 1º de Maio, segundo crenças e rituais ligados à actividade agrícola e à pastorícia, é representativo do retorno à luz e à vida, depois de terminado o ciclo das chuvas de Inverno, anunciando a chegada da Primavera, em que os campos ficam cheios de flores. Trata-se, sem dúvida, de uma manifestação de cultura popular.

As chamadas “ladainhas de Maio”, eram preces públicas, em que a população acreditava vir a obter boas colheitas.

É um dia que representa a liberdade, onde se exprime publicamente o que se sente. Antes da Revolução de Abril de 1974, estas manifestações populares de caracter profano, eram pouco viáveis. De facto, as autoridades locais reprimiam este ritual, na medida em que por vezes apresentava duras e jocosas críticas ao regime de ditadura do Dr. Oliveira Salazar.

Mas ainda assim, no passado era possível ver alguns Maios, pendurados como se faz com o Pai Natal, nas fachadas de várias casas dispersas pelo campo. Noutros casos eram colocados nos telhados, e até em Olhão por vezes se viam nas açoteias.    

Uma das manifestações mais significativas dos Maios, é a Exposição que se realiza na freguesia de Moncarapacho, na estrada EN 125, entre Marim e Alfandanga, na extensão de 4 Km. O evento é organizado todos os anos no dia 1 de Maio pelo Futebol Clube de Bias.

Esta colectividade, fundada em 1982, na freguesia de Moncarapacho, no concelho de Olhão, tem desenvolvido um valioso trabalho no futebol de formação, para além da realização de diversos eventos ao longo do ano, mantendo vivas tradições populares da região.

É de referir que em princípios da década de 1980, este ritual encontrava-se praticamente perdido, e foi o Futebol Clube de Bias quem promoveu o seu ressurgimento, e o tem mantido.

Os Maios são grandes bonecos ou figurantes, no tamanho aproximado das pessoas, feitos de pano, com roupas velhas e palha; estes bonecos são confecionados com mestria por artesãos locais. É habitual representarem políticos, governantes e autarcas, mas também se referem a diversas profissões, bem como a factos e cenas da vida quotidiana e da sociedade.

Os bonecos podem simbolizar ainda os mais variados ofícios, como pescadores, camponeses, comerciantes ou artesãos; os cenários nalguns casos incluem peças reais, como utensílios caseiros, mobiliário, ferramentas, bicicletas ou outro antigo meio de transporte.    

Muitas vezes, os bonecos apresentam inscrições em verso, na expressão mais genuína da poesia popular. Noutros casos, o autor do Maio escreve textos em prosa. Os versos e os textos, de uma maneira geral exprimem críticas, dirigidas a políticos e governantes, que o boneco procura ridicularizar, ou chamar a atenção para determinado facto flagrante.

Também são expostos Maios em diversos locais da aldeia (hoje Vila de Moncarapacho) como na Casa do Povo, no adro da Igreja, nas praças e nas ruas à porta das casas. Na prática, situam-se em lugares de convívio ou de passagem de pessoas.  

Uma tradição deste ritual, é o designado “atacar o Maio”, que consiste em provar os primeiros figos secos da colheita anterior, e beber um copinho de aguardente de figo ou medronho.

A Exposição ao longo da EN 125 é uma maneira de divulgar este ritual muito antigo; trata-se de uma manifestação genuína, de arte e imaginação popular. Cada concorrente prepara o seu Maio, e durante o dia 30 de Abril, os bonecos vão sendo colocados ao longo das bermas da estrada, sendo numerados e identificados pela organização.

Depois, no dia 1 de Maio, que na região é conhecido pelo dia dos maios”, um Júri integrando elementos dos órgãos sociais do Clube, bem como representantes da Autarquia e das Escolas, vai analisando e classificando cada um dos Maios.

De salientar a presença desde há vários anos no Júri, da Professora Guiomar Paulo. Foi a Professora Guiomar que incentivou as Escolas a participarem no evento, primeiro a Escola de Bias, e depois outros estabelecimentos de ensino.

Ao fim da tarde, o Júri reúne na sede da colectividade, em Bias do Norte, no edifício da antiga Escola Primária, para definir as classificações, sendo considerado cinco tipos de Maios:

Tradicional, Tradicional Grupo, Tema Livre, Escolas e Infantil. Nalguns anos, já tem surgido o chamado maio vivo, em que o figurante é mesmo uma pessoa.

Durante a tarde, a tradição manda atacar-se o maio, comendo um bom petisco de caracóis, e depois também figos secos, acompanhado com um copinho de aguardente de medronho ou de figo. Uma semana depois, o Futebol Clube de Bias realiza na sua sede uma pequena festa para a entrega dos prémios, e que inclui jantar, música e baile.

Ao longo dos anos, muitas pessoas da região têm colaborado e participado com empenho no evento da EN 125, sobretudo na confecção e colocação dos bonecos nas bermas da estrada. Desses participantes, queríamos aqui fazer referência, e deixar uma palavra de muito apreço em memória de duas senhoras já falecidas, a D. Cerília Madeira (nasceu em 1925) que durante décadas apresentou os seus “maios” no sítio dos Cavacos, sendo de sua autoria os versos.

Igualmente a D. Benvinda (nasceu em 1919) fez muitos versos para os Maios que preparou. Também nos Cavacos, as senhoras D. Noélia Cristóvão e D. Conceição Saúde, têm dado um grande contributo para a exposição, apresentando os seus bonecos desde há muitos anos.

É ainda de registar alguma dedicação a este ritual noutros locais do concelho de Olhão, como:

Em Moncarapacho, pela Junta de Freguesia, e também por iniciativa da Casa do Povo do Concelho de Olhão; na Fuzeta, pela Associação Cultural Fusetense; em Quelfes e Brancanes, pela Junta de Freguesia de Quelfes; em Pechão, e na própria cidade de Olhão.

Também a D. Maria Natalina Celorico (nasceu em 1929), poetisa popular, professora do ensino particular e auxiliar de educação no ensino oficial, tem colaborado com vários artersãos, compondo os poemas que acompanham cada um dos Maios.

Em Maio de 2005, foi editado o livro “Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente”, com o subtítulo Património Cultural Ibérico. O autor é Noémio Ramos, com a colaboração de Inês Ramos e Maria João Ramos. Alguns elementos para esta publicação, foram facultados por dois dirigentes do Futebol Clube de Bias na altura, Joaquim Fernandes e José Eduardo Zacarias.

De ano para ano, tem vindo a aumentar o número de visitantes à Exposição na EN 125, quer por parte da população local, quer por pessoas que veem de longe. Durante todo o dia, mas sobretudo à tarde, a estrada fica repleta de viaturas e de população nas bermas, criando um ambiente festivo e cordial entre participantes e visitantes.

Nos últimos anos, é de registar a colaboração do Museu Municipal de Olhão, que tem incentivado a prática desta tradição junto das Escolas e Jardins de Infância Públicos do Concelho de Olhão, sendo de salientar a participação de: Agrupamento de Escolas Dr. Alberto Iria, Agrupamento de Escolas Professor Paula Nogueira, Agrupamento de Escolas Dr. Francisco F. Lopes e Agrupamento de Escolas João da Rosa.

Nas últimas exposições, um grupo de senhoras dos Cavacos, conhecido por “As Amigas da Boa Vontade”, tem apresentado um número significativo de Maios. Algumas das participantes pertencem a famílias com grande tradição nos Maios.

É cordial deixar aqui uma palavra de apreço para com os dirigentes do Futebol Clube de Bias (os actuais e os antigos), que ao longo de várias décadas se têm empenhado na realização e desenvolvimento da Exposição.

Igualmente, dirigimos um tributo aos elementos da Comissão de Júri, que todos os anos se faz à estrada no dia 1 de Maio, com verdadeiro espírito de missão, para classificar os Maios nas diversas categorias regulamentadas pela organização.

Manuel Pereira
Artigo saído no "O Olhanense" de dia 1 de maio de 2026