Esta rábula, da autoria de Adriano Baptista, tem três personagens olhanenses – um primeiro marítimo, um segundo marítimo e um “burguês afectado”. Estas personagens foram representadas por Vázinho (1º marítimo), Francisco Pina (burguês afectado) e Fernando Trindade (2º marítimo):
Burguês:
Minhas senhoras. Senhores.
Quem na nossa Terra entrar,
Junto ao jardim, onde as flores
Convidam, a aspirar
Profundamente a essência,
O odor, que se distingue do…
1º marítimo:
Diga, diga ermãozinho:
Dos cheiros do sovaquinho…
Burguês:
Que bem-criado que está…
Quem é você, afinal?
1º marítimo:
Um marítimo, rapá,
Que veio ver-te das cadeiras
Com bilhete de geral…[1]
Burguês:
Bem, não diga mais asneiras
Que lhes ficam muito mal…
Encontro nisso uma indecência.
1º marítimo:
Peço perdões a vocência.
Burguês:
Eu ia dizer, senhores,
Que lá no jardim a gente
Se estonteia docemente
Com o perfume das flores.
Eu, quando respiro fundo,
E o perfume me embriaga,
Sonho… e sinto-me tão forte,
Que me julgo um invencível,
Capaz de calar o mundo
E matar a própria morte.
1º marítimo:
Am lá, am lá se a maré
Já estivesse vazia,
Gostava de ver, ao pé,
A cara que ele fazia…
Burguês:
Meu caro senhor, não vim
Aqui pra ser insultado,
Se continuamos assim
Temos o caldo entornado.
1º marítimo:
Mosse não sejas peludo.
Pois não esconfia de tudo!
2º marítimo:
Ó compadre Jaquenito,
Não se meta em sarilhos,
Lembre-se que você tem
Mulher e catorze filhos.
Tome conta e veja lá…
1º marítimo para 2º marítimo:
Cala a boquinha rapá.
Mosse
Mas pra que é essa cantiga?
A minha mulher já foi
Alguma vez tua amiga?
2º marítimo:
Ó mano Jaquim, Deus queira
Que você não se arrependa!...
1º marítimo para 2º marítimo:
Olhe lá, compadre Ambrósio,
Boa venda, boa venda…
(1º marítimo para burguês):
Vá prá frente camarada.
Continue com a estopada.
Burguês:
O senhor não tem juízo
E já vejo que é preciso
Pô-lo no olho da rua…
1º marítimo:
Tá bem rapá, continua…
Burguês:
No solitário lugar
A que vim de referir-me,
Basta para distrair-me
A passarada a cantar…
Fica a gente extasiado,
Vencido pela saudade,
Ao recordar o passado…
- O passado: aquela voz
Melodiosa, que adeja
E ecoa dentro de nós
Como um sino numa igreja…
O perfume é estonteante…
1º marítimo:
É assim mesmo ermanito.
Nesse lugar solitário
Onde a vaidade se apaga,
Com um perfume ordinário
Qualquer tipo se embriaga
Burguês:
Cale-se seu atrevido,
Vim aqui pra ser ouvido,
Não pra ser incomodado.
1º marítimo:
Lá está o gajo empachado
Ó mosse,
O perfume estonteante,
Ai em te chegando às ventas
O cheirinho da vazante!...
Burguês:
Senhor polícia. Você pode
Fazer com que aquele senhor
Se cale e não me incomode?
1º marítimo:
Am lá se pode, que julgas?
Eram duas ou três noites
Lá na casinha das pulgas…
Burguês:
Senhor administrador,
Eu não posso continuar
Com toda esta discussão.
Veja lá, se faz favor,
De, ao menos, mandar calar
Esse grande figurão
1º marítimo:
Pronto. Já estou calado.
Agora já não o empacho…
2º marítimo:
Mano Jaquim, que disse eu?
Está aqui está lá em baixo.
1º marítimo:
Camarada!
Não me empache, camarada!
Ao menos lá na cadeia
Hei-de ter a barriga cheia…
(para burguês):
Meu senhor, peço perdões
De estar a incomodá-lo.
Agora vou tar ainda
Mais calado que um robalo
Burguês:
Sigo pela avenida. A luz
Encandeia o meu olhar,
Ao longe avisto uma cruz,
Gente ajoelha a rezar…
1º marítimo:
Isso é o Senhor dos Aflitos
Tem até
O café do João Pacheco[2]
Mesmo ao lado, quasi ao pé…
Burguês:
Oh! Mas que grande carraça!
1º marítimo:
Ele não vende carraça.
Vende cachaça, cachaça.
Burguês:
Venda lá o que vender.
Você tem de convencer-se
Que não tem que intrometer-se
No que eu estou a dizer…
1º marítimo:
Prontinho, já estou calado.
Que rai d’homem mais zangado!
Burguês:
Ouço ao longe um violino.
E vejo povo e mais povo
Ao pé do cinema novo!...
1º marítimo:
Am lá,
Era no Café do Parra
Gente a ouvir o Paixão
Cantar o fado à guitarra…
Ó mosse,
Não anda sempre enludido!...
Burguês:
Cale-se burro, atrevido.
1º marítimo:
Burro!... ai, ai, ai…
Eu cá chamo-me Jaquim,
Não sou filho do teu pai
Já me vai mas é chegando
A mostarda ao nariz…
Burguês:
Vou deixar de fazer caso
Daquilo que você diz.
Junto à Igreja Matriz
Outro Jardim encontrei,
Muito lindo por sinal…
1º marítimo:
Não desceste ao subterrâneo?[3]
Pois fizeste muito mal…
Burguês:
Ó mas que grande animal
1º marítimo:
E tu o que és sapateiro?
Alhames se eu tivesse
Um remo do meu saveiro…
Burguês:
Concerteza não fazia
Coisa boa…
1º marítimo:
Amachucava-te a proa.
Burguês:
Malcriado.
1º marítimo:
Está calado.
Burguês:
Desci a Rua das Lojas
Mais ao fundo ouvi um grito.
Batia-me o coração…
1º marítimo:
Já sei, foi o Alemão[4]
Na rua do Peixe Frito…
Burguês:
Volto à esquerda, vejo o mar,
Praças do peixe e verdura
Qual das duas a mais bela…
1º marítimo:
Mosse, porque não ficaste
Hospedado à do Portela?[5]
Burguês:
E que tinha eu a perder
Se lá ficasse canalha!...
1º marítimo:
Tinhas bastante a ganhar
Davam-te um jantar de palha.
Burguês:
Minhas senhoras. Senhores.
Com um atrevido assim
Isto nunca mais tem fim.
Não posso ouvir indecências.
Perdoem V. Excias.
Àquele mal-educado.
1º marítimo:
Lá me deixaste empachado.
[1] O local que no cinema, tão apreciado na época em Olhão, estava reservado ao povo, era a geral… Curiosamente, Adriano embora pudesse ir para a plateia, com frequência preferia a geral, para ouvir o falajar do povo!
[2] Este café era um anexo lateral à Igreja Matriz, onde mais tarde se localizou a Junta de Freguesia e só nos últimos anos do séc. XX passou a ser os serviços administrativos da Igreja.
[3] O jardim lateral à Igreja Matriz, onde agora se encontra a estátua do Padre , tinha uma casa de banho pública subterrânea, onde os odores deviam ser muito fortes, até porque acabou por ser fechada devido às infiltrações da maré nos canos…
[4] Parece que residia um alemão nesta zona que era conhecido por bater na esposa, facto então perfeitamente aceitável como se vê…
[5] Cavalariça onde se guardavam os carros de mulas com os respectivos animais.